NET-ARTE
ESTÉTICAS

Moholy-Nagy, Telephone Picture, 1922INTRODUÇÃO

Nam June Paik, Magnet TV, 1965
ANTECEDENTES
Ken Golberg, Telegarden, 1995
FRONTEIRA

MERCADO

Jodi, 404, 1997

1997 é o grande ano heróico da Net-Art . A Internet tem o poder de situar o utilizador numa situação simultâneamente publica e privada. Diante do seu computador, o internauta encontra-se num espaço intimo e solitário e, ao mesmo tempo, tem a possibilidade de comunicar e actuar em tempo real com pessoas e lugares disseminados por todo o planeta. A garantia de anonimato que este meio proporciona, converte-o num território favorável para uma série de comportamentos, que não teriam lugar noutras situações. Por outra parte, a narrativa hipertextual não linear expressa-se em numerosos projectos, que demonstram a maturidade alcançada na experimentação neste campo, tanto no referente ao domínio da tecnologia como aos conteúdos.
A facilidade de confessar-se com uma máquina de por meio, é aproveitada por vários projectos que seguem o rasto de I Confess , colocado on line em 1996 pelo Group Z .
Persistent Data Confidante de Paul Vanouse que, pela sua simplicidade e interactividade real representa un exemplo de Net-Art puro. Vanouse propõe uma troca de segredos: o utilizador deve deixar um para poder ler outro, o qual pode pontuar. Desta forma, os segredos com menor pontuação, ou seja os menos interessantes, são eliminados da lista e o visitante, influenciado pelo conteúdo da web converte-se em co-curater.
The Temple of Confessions de Guillermo Gómez-Peña , um artista mexicano radicado nos Estados Unidos, utiliza as tecno-confissões de milhares de utilizadores para descobrir os tópicos e preconceitos existentes acerca das minorias étnicas. As indicações dos internautas, servem ao artista também para criar Etnocyborgs , aos quais dá vida durante performances, como a que realizou em Barcelona, em 1999, durante o festival Sonar.
Technosphere , dos ingleses Gordon Selley, Jane Prophet e Mark Hurry , criam um projecto com o objectivo de refletir sobre os limites da criação na Internet, o primeiro site sobre vida artificial na rede e um dos mais espectaculares ao nível gráfico. O utilizador pode dar vida à sua própria criatura, elegendo as suas características físicas e os seus costumes. Depois, graças a uma password , pode seguir o seu desenvolvimento no mundo virtual sempre que se conecta.
The Web Stalker , crIado por um grupo de artistas britânicos, o grupo I/O/D , entra na guerra dos browsers , criando um alternativo, concebido como critica à navegação mediante hiperlinks. Em vez de apresentar as páginas separadamente, Web Stalker percorre a web e reorganiza as suas ligações, eliminando os elementos desnecessários e poupando muitos passos ao utilizador. O projecto resulta notável tanto pela forma de reflectir sobre a rede recusando os parâmetros existentes, como pela sua capacidade de invenção e domínio do médium.
Multi-Cultural Recycler de Amy Alexander é um projecto inspirado no conceito da reciclagem como alternativa à superabundância e à rápida obsolescência da informação electrónica. Este projecto emprega as web cams ligadas 24 horas por dia na web, oferecendo ao visitante a possibilidade de realizar o seu próprio "abono cultural" misturando as diversas imagens captadas pelas câmaras.
404 , do par belga-holandês Jodi , é uma obra de culto e é necessário coloca-la num enquadramento no qual os artistas se aproveitam dos erros e imprevistos da linguagem hipertextual, para construir projectos de grande impacto gráfico. Neles, o utilizador é quase obrigado a lutar contra uma página cujas funções não acaba muito bem por entender. 404 , que se chama assim porque a primeira página que aparece é a do celebre erro "404 URL not found", está nesta linha, realizada com imagens de baixa resolução, com páginas que carregam muito rápido, demonstrando uma falsa interactividade e um emprego atípico das ferramentas web, desde a linguagem HTML ou ASCII até aos vírus que utilizam para realizar divertidos efeitos especiais . Jodi encabeça uma tendência que mais tarde se definirá como hacker art .
Tras Intima do esloveno Igor Stromajer e dos russos Alexei Shulgin y Olia Lialina , põem em linha as suas respectivas homepage, Easylife e Telepostacia , que se configuram como laboratório artístico, obra de arte e espaço de reflexão.
A criatividade dos artistas provenientes dos paises da europa de leste, confirmam a Net-Art como uma importante forma de expressão artística que, desde a II Guerra Mundial, transcende as fronteiras e as diferenças culturais entre a Europa Ocidental e Oriental. Por um lado a Internet permite iluir as habituais classificações étnicas e os clichês nacionais e, por outro, permite de utilização de canais de produção e distribuição distintos dos tradicionais.
Shulgin apresenta ABC , considerado um dos projectos mais emblemáticos na busca de novas formas de expressão na rede. No entanto, talvez para o utilizador seja mais gratificante Desktop IS , uma obra de net-art, simultâneamente uma exposição e uma colecção. O projecto reúne 80 imagens de desktops , enviadas a Shulgin por amigos e outros net-artists, que demonstram tanto as suas diferenças individuais como o potencial criativo da tecnologia.
Heaven & Hell de Lialina que envolve uma narração hipertextual mais clássica, e realizado em colaboração com Michael Samyn , onde umas cores neo-pop substituem o preto e branco das suas obras anteriores,   explora os mecanismos dos motores de busca numa net comedia em três actos e um epílogo: Anna Karenin goes to paradise .
History of Art for Airports , de Vuk Cosic é outra obra de culto. Neste projecto, Cosic inicia a sua Historia Oficial da Net-Art, onde ironiza sobre a representação da art na rede, através de uma série de ideogramas parecidos aos que se encontram nos aeroportos, representando momentos e criadores chave da história da arte, desde Lascaux a Warhol, incluindo também destacados net-artists, como Heath Bunting.
Em 1998 a Net-Art já desenvolveu a sua linguagem e começa a criar vários dispositivos críticos autônomos. A sua ampla e articulada presença já não pode considerar-se anedótica pelas instituições artísticas. Depois do reconhecimento público em finais do ano anterior, com a inclusão de vários projectos na Documenta X de Kassel, a Net-Art converte-se em objecto de interesse por parte dos museus. Os comissários mais dirigidos ao contemporâneo incluem-na nas suas selecções e concebem as primeiras exposições on line.
Precisamente para que não se perda memória dos momentos cruciais da breve história da Net-Art, Vuk Cosic , que havia copiado a página da Documenta X antes que fosse definitivamente suprimida, inclui-a na sua Homepage . Deste modo, a mudança de URL é suficiente para converter um sitio informativo em obra de arte.
Without Addresses , de Joachim Blank e Karl Heinz Jeron , que depois de a apresentar na Documenta, rentabilizaram a idéia da reciclagem de sítios em Dump your trash , onde se oferece ao utilizador a possibilidade de reciclar a sua velha página convertendo-a em obra de arte. Apenas tem que enviar o URL e aceitar pagar 1.500 dólares e receberá em sua casa um baixo relevo em mármore, no qual foram gravados uma porção de texto, uma imagem e a direcção web. A idéia de que, na nossa sociedade, o excesso de informação só é comparável à ausência de conteúdo, é compartilhada também por Mark Napier , que cria Digital Landfill , um caixote do lixo on line, onde podemos desfazer-nos de todos os desperdícios digitais que já não necessitamos (emails, dados obsoletos, velhos sites), contribuindo para a criação de um abono virtual para fertilizar o terreno das idéias .
A idéia de capturar, armazenar e elaborar fragmentos de obras já existentes para obter novos significados, confirma-se como uma das características peculiares das obras de Net-Art. Nesta linha Napier concebe The Shredder que apresenta a estrutura global do site como uma collage caótica e irracional. Diferente dos navegadores tradicionais Shredder apropria-se dos dados da página, destruindo e depois reconstruindo a sua estrutura para criar outra web paralela à original. Desta forma os conteúdos convertem-se em abstração, os textos em gráficos e a informação em arte.
A evolução da tecnologia digital reflecte-se em projectos polifacetados, de grande impacto visual que, apesar de funcionar com uma interactividade quase mecânica, conseguem surpreender, cativar e implicar o visitante. É o caso de Superbad de Ben Benjamin , um sitio sem explicações, nem notas biográficas; um campo de jogos, onde não existe narrativa nem nenhum tipo de progressão, podendo o visitante navegar na direcção que preferir. Os menos aventureiros podem procurar guiar-se por um roteiro, ainda que os títulos não sejam descritivos nem explicativos das curiosas experiências que os esperam.
Art.Teleportacia , é a primeira galeria de Net-Art que surge na rede. A obra de Net-Art perdeu o seu carácter efémero: muitos artistas manifestam, não só a necessidade de manter um arquivo da sua evolução criativa, mas também de entrar no mercado da arte.
Olia Lialina posiciona-se claramente no debate sobre os prós e os contras da comercialização da Net-Art, criando uma galeria virtual. Na sua primeira exposição Obras do Período Heróico , Lialina pôe à venda cinco obras por 2000 dólares cada uma.Além das suas obras, existem quatro projectos dos Net-Artists mais conhecidos internacionalmente: ABC (1997) de Shulgin , Location/Index de Jodi , Metablink de Vuk Cosic e Own, Be Owned or Remain Invisible de Heath Bunting . Neste projecto o artista britânico utiliza os recursos das hiperligações para representar a rede como uma complexa interacção de expressões narcisistas e desprendimento público, como um campo de batalha entre as instituições e os indivíduos. Olia Lialina , que encarna perfeitamente o novo modelo do artista-teórico-crítico-curator-divulgador, contribui ao debate com o seu testamento digital Will-n-testament , ao mesmo tempo que continua a sua vertente de narradora de histórias com Agatha Appears , um projecto que consiste numa cena de sedução entre um homem experiente e uma adolescente.


Ola Lialina & Michael Samyn,
Haeven & Hell, 1997


Vuc Cosic
, Metablink, 1998