A finais do milénio, a rede converteu-se num território de inversões milionárias por parte de grandes corporações multinacionais e os net-artists enfrentam-se às exigências do mercado. Lentamente os paradigmas da arte tradicional voltam a impor-se e parecem querer absorver a Net-Art. A comercialização deste tipo de obras converte-se em tema de debate e também em objecto de acções de sabotagem simbólico. Já em 98, Olia Lialina se havia posicionado quanto ao debate sobre os prós e os contras da comercialização da Net-Art, criando uma galeria virtual.
Com o objectivo de recuperar o antigo espírito da Net-Art, o colectivo italiano 0100101110101101.org , liderado por Luther Blisset , repudia a falsa interactividade de muitos projectos e convida o utilizador a disfrutar da obra de forma imprevisível, distanciando-se das previsões do autor, retirando-a da sua rotina habitual (artista / galeria / museo / web) e reutilizando-a num novo contexto. Alexei Shulgin manifesta o seu ponto de vista em FuckU-FuckMe , onde póe à venda por 500 dólares cada um uns aparelhos que proporcionam a mais completa solução ao sexo por controle remoto na Internet; um sistema de interface intuitivo que permite ao utilizador concentrar-se completamente na comunicação sexual. A página carrega-se rápidamente e as imagens são muito explicativas...
Enquanto na rede se debatem os conceitos de original, plágio e reciclagem, de apropriação e copyright, Mark Napier continua a sua reflexão particular aplicada ao desenvolvimento dos recursos técnicos com a criação de Riot , um navegador que realiza uma colagem automática da página que se deseja visualizar, com as três últimas que se visualizaram nesse sítio.
O potencial criativo da Internet e a acessibilidade das suas ferramentas, que permitem a qualquer um a ilusão de converter-se num artista, é questionado em Hommage to Mondrian de Teo Spiller . Um projecto que desafia o utilizador a criar a sua própria versão da uma famosa obra de Mondrian. O jogo que, num primeiro momento parece simples, complica-se a cada passo e o resultado diferente do esperado.
Baseado num conto de Jorge Luis Borges, o projecto The Intruder , de Nathalie Bookchin, conta, através de dez jogos, a história de dois irmãos apaixonados pela mesma mulher. O trágico desenlace do relato (o irmão mais velho mata a mulher) reflecte-se no carácter violento dos jogos. O utilizador tem que superar provas tais como capturar palavras, destruir naves espaciais, jogar ping-pong tendo uma mulher como bola, apanhar objectos que caem de uma vagina ou participar num duelo ao estilo do velho oeste.
Enquanto desde Belgrado, durante os bombardeios, a rádio B92 continua transmitindo as vozes da dicidência via Internet e os desalojados e refugiados multiplicam-se, Heath Bunting e Olia Lialina concebem Identity Swap Database , uma base de dados para todos os que queiram ou precisem de mudar de identidade.
Trata a identidade de um ponto de vista genético o projecto Genochoice do grupo Paperveins. O utilizador pode criar um clone de si mesmo o eleger as características psico-físicas do seu filho. Através da leitura do possível código genético Genochoice e propõe mudanças e melhorias, acompanhadas dos respectivos preços. Se o visitante aceitar as condições, recebe um mail informando-o do início do crescimento da sua criatura.
Jodi intensifica a sua estratégia com OSS, um projecto especialmente agressivo, cuja principal habilidade consiste em imitar o sistema operativo de um computador enlouquecido. OSS, disponível também em CD-ROM numa versão mais longa, enche o monitor do utilizador de pequenas janelas, que aumentam de numero e rapidez à velocidade com que o utilizador as consegue fechar.
Em Net_condition, ZKM de Karlsruhe, na Alemanha, apresenta Introduction to net.art 1994 - 1999 , um manifesto da Net-Art, irônico e sério ao mesmo tempo, concebido por Alexei Shulgin e Nathalie Bookchin , gravado numa pedra, na mesma linha de Dump Your Trash de Blank e Jeron .
Em 2001 quase 400 milhões de pessoas, diariamente, relacionam-se por meio da Rede para trocar pensamentos e emoções, enquanto os dispositivos que permitem aceder à Internet se tornam cada vez mais pequenos e convertem-se em extensões do nosso próprio corpo. Chegará a Rede das redes a converter-se num sistema nervoso colectivo que nos transformará a todos em homens-máquina? Seremos imortais? Estas idéias e questões são objecto de debate no início do novo milênio.
Na edição do ArtFutura 2000 o tema central foi: "A Internet como Cyborg". O projecto aí apresentado mais interessante foi Emergence Project de uma das pioneiras da arte electrónica e da Net-Art, Rebecca Allen . Desde vários anos Rebecca investiga as relações entre a presença humana, a vida artificial e o comportamento mediante filmes de animação, performances multimédia e instalações interactivas nas que o utilizador, integrado num espaço tridimewnsional interactua com inovadoras interfaces sensoriais. Emergence gera um mundo virtual "vivo", sensível e interactivo, no qual os personagens são geridos por parâmetros diferentes que definem a sua personalidade e regulam o seu comportamento em relação aos demais habitantes; alem do mais, mediante uma série de scripts, o utilizador pode modificar esses parâmetros permitindo ao sujeito sentimentos como ódio, amor, alegria ou tristeza que influenciam o seu comportamento.
Também foi relevante a exposição de Net-Art, nesse mesmo ano, na Bienal de Montreal : sob o titulo L'autre monde/Out of this world , as dez obras apresentadas formulavam interessantes questões sobre a morte no terreno tecnológico. Segundo a comissária da Net-Art Sylvie Parent a ambigüidade do ciberespaço conduziu a muitos artistas a estabelecer um paralelismo com o Outro Mundo, o inefável espaço da morte . Também é interessante a visão do artista Igor Stromajer : A morte converteu-se no último dos tabus e os rituais e cultos foram sido reduzidos à sua mínima expressão, mas a Rede dá a ilusão de projectar a presença dos defuntos no espaço infinito . À parte de duas obras de Net-Art já conhecidas ( Will-n-testament de Olia Lialina e b.ALT.ica de Igor Strojamer ) destacam-se :
empyrean.alpha da australiana Melis Rachlam , submerge o visitante em universos alternativos e desvinculados do mundo real. Nesse mundo o visitante desloca-se e sente que se distancia do seu corpo, ainda que controle a sua trajectoria e o seu destino. No entanto, explica Racklam , esta sensação de domínio deixa paço a sentimentos contraditórios, uma vez que neste lugar terá a experiência do vazio e das referencias espaciais, já que o espaço tem diferentes elementos micro e macroscópicos, desde células até astros.
Chanel Untitled , da norte americana Diane Bertolo , convida a descobrir os mundos que se ocultam por detrás do telefone, da rádio e do computador. Com este projecto pretende sintonizar com os espectros que "vivem" neles, para revelar as interferências do irracional convidando a reflectir sobre a presença e a ausência do indivíduo.
The fabric of reality , dos canadienses Jean Ranger e Bill Sullivan , convida o visitante a deslocar-se numa imagem panorâmica, como se fosse uma transposição do mundo real. No entanto, ao avançar na navegação a armadilha complica-se, permitindo aceder às sub-capas da realidade oculta.
Para terminar esta breve história da Net-Art, citarei a exposição Dystopia+Identity in the Age of Global Comunications na Tribe Gallery de Nueva York, que se realizou a inícios de 2001. Segundo Cristine Wang, comissária da exposição, reflecte os dois pólos do pensamento, por um lado as visões da morte e da destruição e por outro as representações positivas de um mundo que inicia o milênio criando as suas possibilidades. Destaques nesta exposição:
Pregresive Load , uma obra antimilitarista de Andy Deck .
How to be an internet artist , uma irónica autobiografía de Mark Amerika , que procura demonstrar como os empresários de empreses ponto com, que encheram o mercado, são os verdadeiros Net-Artists.
Street Action on the Superhighways , de Natalie Bookchin , representa os diferentes espaços abertos entre a arte e o activismo, tanto nas ruas como na rede. Internet converteu-se noutro material barato, rápido e dúctil nas mãos dos artistas.
A página do filme de porno-ficção-científica IKU , da artista Shu Lea Cheang , deu-se a conhecer ao mundo da Net-Art como Brandon, o primeiro projecto encomendado para o site do Museu Guggenheim, que estava baseado na história transexual que serviu de base ao filme Boys d'ont Cry.